quando a solidão nos equívoca.





24.3.15



Será possível a nossa carência afetiva e a solidão, levarem-nos a envolver-nos com quem jamais imaginámos? Sim, é! E não acontece só aos outros, é significativamente mais frequente do que imaginamos.



Por vezes as pessoas necessitam tanto de ter companhia que, ignoram todos os indícios de que aquela pessoa – claramente - não é essa boa companhia, e avançam na relação, por vezes idealizando que, um dia, a possa vir a ser.


A solidão é uma das causas mais comuns que conduz as pessoas a iniciarem precipitadamente relações, que pouco ou nada têm a ver com elas. A sensação de estarem quase a “afogar-se” é assim limitada, de repente param de ter de “nadar” porque alguém - um barco - lhes acena com uma “boia”. No entanto, aquilo que com distância parecia um barco, nem sempre o é, e a bóia, nem sempre ajuda a flutuar (pode até ser um peso que ainda nos afunda mais). E com o passar do tempo, quem já estava quase a chegar a terra, para de nadar e fica numa situação em que quase se afoga.


Muitas das pessoas que acompanho em contexto terapêutico referem exactamente essa necessidade de procurar alguém que as resgate da solidão.


De forma consciente ou inconsciente, muitas delas vivem numa espécie de asfixia, procurando por toda a parte um balão de oxigénio que os ajude a respirar. Infelizmente a maioria das vezes esse balão rebenta, ou esgota-se, rapidamente. A relação termina em dias, ou mesmo horas, sem que a pessoa perceba muito bem o que aconteceu, dada a velocidade dos acontecimentos.


Entre o é, e o não é, poderá decorrer um espaço de tempo muito variável, preenchido por mais ou menos expectativas, mais ou menos emoções. O preço a pagar na maioria dos casos é demasiado elevado! ​ Como é possível pensar que aquela pessoa não é a mais adequada, tem características na personalidade que de todo vai ao encontro das minhas expectativas, e em seguida pensar que essa mesma pessoa é linda, amor para a vida? Sim, é possível acontecer, e acontece com muita boa gente e frequentemente! Até mesmo com os mais reservados, ou desconfiados.


As emoções, as hormonas e os nossos instintos primários de sobrevivência, controlam a nossa capacidade de raciocínio e não nos deixam pensar, nem ver com clareza.


​De repente pensamos ter encontrado o que há muito queríamos, e nem olhamos para trás (até porque por vezes vamos de olhos fechados). A solidão, a carência, a falta de atenção ou afeto fazem-nos avançar, limitando por vezes a nossa capacidade de análise, avaliação ou escolha, do que é realmente o melhor para nós.





Nas consultas que dou no consultório, oiço relatos, especialmente as mulheres, afirmando «Mas eu estava cega!...ou não quis ver…», «Eu sabia, e não quis saber!», «Tive tanta pena dele!», «Eu precisava dele como de uma droga!», entre muitos outros. A droga de que aqui se fala é uma droga muito específica que atua ao nível da auto-imagem, auto-estima, autoconfiança e segurança, se não nos sentirmos queridos e amados durante muito tempo, começamos a pensar que se ninguém gosta de nós ou que efetivamente temos algo de errado: somos feios, ou estúpidos, ou não somos de confiança. E, se ninguém gosta de nós, porque é que nós havemos de gostar.